quarta-feira, 16 de julho de 2014

Entrevista com Vôgaluz Miranda.

Por Gilvaldo Quinzeiro







A foto acima é do paulistano Vôgaluz Miranda, o nosso entrevistado de hoje.  Ex-vocalista e letrista da banda ONG, apaixonado pela vida cultural da “terra da garoa”( na foto ele aparece recitando) ,  Vôgaluz Miranda se dedica hoje  apenas a literatura, de modo especial, a poesia.  Na sua entrevista, ele fala da sua admiração pelo poeta caxiense Gonçalves Dias; da efervescência cultura de São Paulo, do movimento “Poetas Ambulantes”,  além, é claro, da sua poesia. Entre um compromisso e outro, este paulistano de raízes nordestina, nos concedeu esta  entrevista em nome da multicuralidade.

Gilvaldo Quinzeiro – Você iniciou a sua carreira artística fazendo parte de uma banda
de rock. Quando e como se deu isso? Como se chamava a banda?
Vôgaluz Miranda - A banda se chamava ONG. Ela surgiu em meados dos anos 90, contava com cinco integrantes, eu era letrista e vocalista. No início da formação, eu e o meu irmão Wagner fizemos várias músicas juntos. Em pouco tempo tínhamos algumas músicas nossas, enfim, um material razoável em mãos, então convidamos o nosso primo Júnior para tocar contrabaixo e os nossos amigos Hide e Pablo para a outra guitarra e bateria, respectivamente. Além das músicas próprias, tocávamos também canções de bandas consagradas como Ramones, U2, Ira, Titãs, Beatles, Led Zeppelin, Pearl Jam, Legião Urbana, enfim, foi uma época marcante na minha juventude.

Gilvaldo Quinzeiro - A banda chegou a gravar algum disco?
Vôgaluz Miranda - Gravamos na época uma fita cassete de demonstração, uma das canções “Alienados” foi classificada e apresentada no Festival Interno do Colégio Objetivo (FICO) em 1995. Participamos também do Festival de Música do Colégio Álvares Penteado em 1996. Depois disso começou o processo de desintegração da banda, houve nova formação, mas infelizmente a vida de todos os integrantes tomou rumos diferentes. Tenho saudades daquela época.

Gilvaldo Quinzeiro – O que lhe fez trocar a música, se é que eu posso falar assim, pela
literatura?
Vôgaluz Miranda-- A literatura, principalmente a poesia, sempre fez parte da minha vida. Lembro-me de Vinícius de Moraes invadindo a minha imaginação de criança, aos sete ou oito anos de vida, com o livro “A arca de Noé”, também me encantava com Monteiro Lobato, e nos livros escolares da época achava lindo o nome Érico Veríssimo, então atravessei a minha fase musical totalmente impregnado de poesia, algo que me ajudou na construção de muitas letras da banda ONG, e assim trabalhando sempre com a literatura e a poesia escrita, cantada ou interpretada, nunca senti uma migração de fato ou ruptura com nenhuma atividade artística que tenha participado.

Gilvaldo Quinzeiro – Quais livros já publicados?
Vôgaluz Miranda - Escrevi três livros de poemas: “O Perfume do Tempo”, “Versorragia Verborrágica” e “Canções para os intervalos”, e um romance “O homem sem coração”. Nenhum destes livros foi publicado. Na primeira tentativa de publicação, enviei para várias editoras os originais de “O Perfume do Tempo”, como obtive a resposta de todas elas de que poesia não vende, o que infelizmente é uma realidade nacional, comecei a divulgar meus poemas na internet. Mas tenho poemas publicados em coletâneas como “O Melhor da Web”, que foi lançada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2007; “100 Poemas 100 Poetas” organizado pelo Abílio Pacheco, um sujeito muito importante na divulgação da literatura em Belém do Pará; e tive a honra e a felicidade de ter o poema “Politicanalha” publicado pelo editor romeno Daniel Dragomiresco na revista multicultural HLC.

Gilvaldo Quinzeiro – Você está trabalhando nalguma obra? Fale um pouco deste novo
trabalho.
Vôgaluz Miranda - Estou acabando de concluir o meu quarto livro de poemas “Revocê”. O livro traz 65 poemas que vêm sendo escritos desde 2012. O título “Revocê” é um neologismo que remete aos termos reconstrução, reencontro, enfim, praticamente significa você de novo. Passei por uma fase terrível na minha vida nestes últimos anos com separação, problemas de saúde, depressão e tristeza profunda. E aprendi que o importante é que mesmo diante das perdas a vida sempre traz coisas novas e também aquelas pessoas especiais que você há muito tempo não via, e então você percebe o quão importantes essas pessoas foram e são para você. Mas adianto, o livro “Revocê” não tem nada de depressivo ou triste, na realidade eu o considero um livro cheio de esperança e coragem, fala de vários temas: sociedade, política, amor, separação, reencontro, entre outros fatos presentes no nosso cotidiano. O pronome “você” é encontrado em muitos poemas propositalmente, pois é um livro escrito de mim para você, só que você não sabe. Entende?

Gilvaldo Quinzeiro – Você também possui um blog. Que blog é este e o que você
costuma postar?
Costumo postar no blog muitos dos meus poemas. Atualmente há aproximadamente 100 poemas publicados por lá, além do romance “O homem sem coração” completo. O blog é vogaluz.blogspot.com.br

Gilvaldo Quinzeiro – Você acha que a internet de alguma forma, favoreceu o trabalho
dos escritores, sobretudo, os novos?
Vôgaluz Miranda - A internet é o instrumento principal para a divulgação do trabalho de todos os escritores contemporâneos. Hoje em dia, você publica um poema na internet e uma pessoa do outro lado do planeta pode interessar-se por ele, comentá-lo, enfim, tomar conhecimento do que foi escrito sem que se precise enviar uma carta, publicar um livro, aparecer no rádio ou na televisão, a internet democratizou a literatura mundialmente, a revista romena HLC do Daniel Dragomiresco é um exemplo disso, há muita gente boa na web realizando trabalhos fantásticos, tanto na literatura como em outras áreas artísticas, mas é preciso garimpar para que se encontre o que se procura.

Gilvaldo Quinzeiro – Fale um pouco da sua participação na vida cultural de São Paulo.
Você costuma participar de sarau?
Vôgaluz Miranda - A vida cultural de São Paulo é vastíssima, há muitos saraus, shows musicais, exposições artísticas diversas, teatro, eu costumo caminhar pelo centro de São Paulo quase todos os dias e vejo muitos artistas de rua cantando, dançando, representando, expondo seus talentos, acho tudo lindo, todos os artistas estão levando suas mensagens para tantas outras pessoas que transitam pelas ruas de São Paulo distraídas demais, feito a cotovia do Manuel Bandeira. Então penso que a minha participação é tímida diante da vastidão artística da cidade. Mas convém que com a poesia seja assim. Costumo ir a alguns saraus, vou ao Sarau “A Plenos Pulmões” dos poetas Marcos Pezão, Jaime Matos e Carlos Galdino, que acontece todos os meses na Casa das Rosas. Vou também ao Sarau “Poemas à Flor da Pele” da poeta Doroty Dimolitsas, que apresenta números de dança, pintura, música, além de muita poesia no Centro Cultural de São Paulo. E adoro me apresentar no Sarau “Encontro de Utopias” dos poetas Paulo D’Auria e Regina Tieko. Recebo inúmeros convites para me apresentar em outros saraus, mas infelizmente o tempo, os compromissos e a distância me impedem de participar como eu gostaria.

Gilvaldo Quinzeiro – E quanto a ideia de fazermos o nosso “café literário virtual”, você
aceita o convite? O que você achou da ideia?
Vôgaluz Miranda - É claro que o convite está aceito. A ideia é muito boa, quero inclusive parabenizá-lo pelo trabalho de divulgação da atividade artística e cultural que você tem feito. São pessoas como você que fazem aquele trabalho necessário para que a memória e o registro de nossa cultura literária e artística sejam preservadas. 

Gilvaldo Quinzeiro – Há algum novo movimento cultural nascendo em São Paulo?
Vôgaluz Miranda - Eu sinto que São Paulo está em estado de ebulição cultural, principalmente em se tratando de poesia. Tem muita coisa legal acontecendo por aqui. Tem um movimento que eu acho muito interessante que são os “Poetas Ambulantes”, são poetas que divulgam poemas nos meios de transporte público, estão nos ônibus e trens do metrô levando poesia para os passageiros, não querem vender, não querem dinheiro, querem mostrar poesia, muito bacana o trabalho deles. Quase na mesma linha dos “Poeta Ambulantes”, tem os poetas que participam do “Poesia na Faixa” e aproveitam, a parada dos veículos no tumultuado trânsito de São Paulo para declamar poemas e mensagens aos motoristas e pedestres. Tem alguns poetas também que atualmente visitam presídios levando poesia, uma iniciativa humanitária e digna de aplausos. Essa visão que tenho dos movimentos poéticos de São Paulo me enche de felicidade e fé de que a poesia sempre vale a pena. 

Gilvaldo Quinzeiro - No dia 10 de agosto, o poeta Gonçalves Dias completará 191 anos
de nascimento. O que você tem a dizer do poeta Gonçalves Dias?
Vôgaluz Miranda - Gonçalves Dias foi o sol que iluminou toda a poesia brasileira. A influência de Gonçalves Dias é tão intensa que até o hino nacional incorporou um trecho da “Canção do Exílio”. Todos os brasileiros deveriam conhecer a fundo a poesia de Gonçalves Dias, as crianças na escola deveriam aprender desde cedo a importância que tem este poeta para toda a literatura nacional. Eu acho engraçado isso, muitos brasileiros aprendem a cantar o hino nacional sem se dar conta do significado ou da poesia que está contida nele. A perfeição da métrica, rima e ritmo dos poemas de Gonçalves Dias são para mim um deleite, tive, inclusive, a petulância de fazer uma paródia à já tão parodiada “Canção do Exílio”, está lá no meu blog. Há dois poetas maranhenses que admiro e que figuram entre os maiores poetas brasileiros de todos os tempos, um é o Gonçalves Dias e o outro é o Ferreira Gullar. 

Gilvaldo Quinzeiro – Fale um pouco do seu processo de produção literária. Como e em
 que momento você costuma escrever?
Vôgaluz Miranda - Não tenho um processo específico, mas gosto de escrever à noite ou de madrugada, durmo inclusive com um caderno de anotações na cabeceira da cama. Durante este horário as ideias costumam me visitar com mais frequência, anoto tudo no caderno e, aos poucos, vou passando para o computador. Meus livros de poemas costumam demorar dois ou três anos para tomarem forma, essa é uma das vantagens de não se ter compromisso com editoras, não gosto de escrever poemas apressadamente e de qualquer jeito apenas para ter um livro em mãos. Um poema deve ser pensado, desbastado, alisado, até tomar forma, com o passar dos anos tenho ficado mais cauteloso, leio mais poesia do que escrevo e isso me ajuda muito. Acho que o livro “Revocê” tem me disciplinado bastante nisso, não há pressa e o resultado está saindo do meu gosto. Acho que estou aprendendo a escrever poesia finalmente. 

Gilvaldo Quinzeiro – Para finalizar, deixe uma mensagem aos caxienses.
Vôgaluz Miranda - Quero primeiramente agradecer a você mestre Gilvaldo Quinzeiro e ao Diário de Caxias pela oportunidade de me apresentar aos caxienses. Uma terra que deu ao Brasil o poeta Gonçalves Dias só pode ser abençoada. Aos caxienses quero dizer que independentemente da distância estaremos sempre ligados pela arte e pela cultura, o Brasil é gigante, e o coração dos brasileiros também se agiganta quando recebemos nossos irmãos em nossa casa. Obrigado pela acolhida Caxias. E é pelo respeito que tenho pela arte do povo do nordeste do Brasil, sempre representada pelas mãos dos artesãos nordestinos, que dedico, em despedida, este poema aos caxienses: “O que se faz de qualquer jeito não revela o que é belo. O que se faz com amor, por mais simples que seja, permanece eterno.”




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